terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

À PROCURA DE UM REFLEXO

Conto de Marina Colasanti
Publicado no livro: Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento.
                                                                         (Rio: Nórdica, 1982)

1             De repente, uma manhã, procurando-se no espelho para tecer tranças, não se encontrou. A luz de prata, cega, nada lhe devolvia. Nem traços, nem sombra, nem reflexos. Inútil passar um pano no espelho. Inútil passar as mãos no rosto. Por mais que sentisse a pele sob os dedos, ali estava ela como se não estivesse, presente o rosto, ausente o que do rosto conhecia.
2             - Imagem minha, - murmurou aflita, - onde está você?
3             E se tivesse ficado esquecida no lago, onde ainda no dia anterior estivera se olhando? Em susto, correu pelos jardins, temendo pelo rosto abandonado, flutuando entre nenúfares.
4             - Lago, lago, que fez você com a imagem que ontem deitei na tua água? - perguntou. E duas lágrimas quebraram a lisura da margem.
5             - Como quer que eu saiba, se tantos vêm se procurar em mim? - respondeu o lago desdenhoso. - Talvez tenha sido levada pelo córrego, com outras miudezas, - acrescentou. E com a fidalguia de quem ajeita um manto, ondeou a superfície bordada de reflexos.
6             Impossível para a moça encontrar sua imagem na espuma que o córrego batia de pedra em pedra. Impossível aceitar que estivesse despedaçada. Mais fácil acreditar que havia descido a corrente.
7             Descalçou os sapatos e, com os tornozelos trançados em tantos nós de água, seguiu pelo córrego. Em cada remanso, em cada refluxo, em cada redemoinho procurou rosto ou rasto. Sem que porém nada lhe dissesse, esteve aqui. Juntos atravessaram um campo, rodearam em curvas as primeiras árvores da floresta, descansaram  na clareira. Juntos entraram na caverna.
8             Nem bem percebeu que entrava, tão grande a boca, tão verde o musgo que a cobria. Andou ainda um pouco lá dentro, hesitante entre tantos rumos. Mas logo fez-se frio. E a escuridão ao redor. Gotas pingavam do alto, gemendo nas poças em que o córrego parecia desfazer-se. O medo, entre rochas, bateu asas. Por onde tinha vindo? Olhou em volta, procurou atrás de si. Tudo era tão semelhante que não conseguia reconhecer os caminhos. Só lá adiante, além dos arcos formados pela pedra, viu brilhar a claridade.
9             - Talvez por ali, - pensou, reconfortada.
10           Porém, superado o primeiro arco, e o segundo, chegando enfim à luz, a moça achou-se frente a um imenso salão de gruta onde centenas de espelhos cobriam as paredes, centenas de velas brilhavam acesas. E diante de cada espelho, sobre pedestais, repousavam bacias de prata.
11           Atraída por aquele estranho lugar, desceu dois degraus, caminhou até o primeiro pedestal, e já se levantava na ponta dos pés para olhar dentro da bacia, quando:
12           - Com que então, veio me visitar! - ricocheteou estrídula uma voz, batendo de espelho em espelho.
13           Um susto, um salto. Só nesse momento a moça percebeu a Dama dos Espelhos, tão bela e cintilante que entre brilhos se confundia. Por um instante temendo aquela estranha senhora, desculpou-se, não sabia que ali morasse alguém, não pretendia...
14           - Mas eu gosto da sua visita, - cortou a Dama com estranho sorriso. - Há tanto vivo aqui sozinha sem que ninguém venha me ver... Acho mesmo que você deve ficar!
15           E levantando a mão com um gesto de corisco, apontou para a entrada da gruta. Sem ruído, um espelho desceu barrando o caminho.
16           - E agora, jovem curiosa, - ordenou a voz cortante, - olhe bem aquilo que tanto queria ver.
17           Assustada, debruça-se a moça sobre a bacia. Para descobri-la cheia de água, clara poça em que um rosto de mulher flutua. Não o seu. Pálido rosto sem tranças, que não a olha, encerrado no círculo de prata.
18           - De quem é esse rosto, senhora? - pergunta a moça tentando controlar o visgo do espanto.
19           - É meu! - rompe em farpas a risada ma Dama.
20           Súbito uma das velas se apaga. No espelho atrás dela, um rosto de mulher aparece e se inclina, oferecendo ao pente seus cabelos. Não ri mais a Dama. Exata, avança para o espelho, e quase sem tocá-lo colhe nos dedos as beiras da imagem, lentamente desprendendo-a do vidro. Por um instante, estremece no ar aquele rosto, logo pousado sobre a água, onde nunca mais penteará os cabelos.
21           - Então foi isso que aconteceu com o meu reflexo! - em ânsia, a moça corre de bacia em bacia, chamando o próprio nome, procurando. E em cada quieto olho d’água se defronta com uma nova imagem, sem que nenhuma seja aquela que mais deseja.
22           Até que:
23           - Ali! Comanda a Dama, indicando.
24           Debruçada, afinal, sobre si mesma, traço a traço, irmã gêmea, a moça se reencontra. Mas por que não brilham de alegria os olhos que ela vê e não parecem vê-la? Por que não lhe devolve o sorriso a boca tão séria?
25           Ergue-se a moça, sem que o rosto na água lhe siga o movimento. Flutuam as tranças louras, como algas. E nada altera a expressão prisioneira.
26           - Por favor, senhora, devolva meu reflexo.
27                 - Impossível! - lacera o grito da Dama.
28                 E mais calma:
29           - Nenhum reflexo jamais saiu daqui.
30           Depois, no longo silêncio que se faz:
31           - Antes que a noite acabe, você compreenderá por quê.
32           A noite? Já é noite, então? Trancada na gruta entre velas acesas, a moça não sabe do tempo. Sabe apenas que não quer afastar-se de si mesma, deixar seu rosto sozinho na água fria. E ali, junto dele, sem ousar acariciá-lo com medo de romper-lhe os traços, deixa as horas passarem em silêncio.
33           Longe, num canto sombrio, a Dama parece ocultar-se, enquanto o tempo se gasta com a cera.
34           Cochila quase a moça, quando, de repente, a Dama se move, saindo lá do canto. Mas entre luz e sombra, outro é o seu porte. Encurvados os ombros, a cabeça pende, e mechas brancas escapam sob a coroa.
35           Trêmula, arquejante, a Dama anda entre espelhos e pedestais. Diante de cada bacia pára quase poupando forças, olha, e segue. Nenhuma a detém longamente. Até que um reflexo parece atraí-la mais que os outros. E ela rodeia a prata com as mãos, num último esforço a levanta acima da cabeça, despejando lentamente a água sobre seu rosto.
36           Rosto que a moça boquiaberta vê transformar-se aos poucos, fazer-se jovem, dono das feições que antes boiavam em silêncio.
37           Ri a Dama, triunfante: - Um reflexo é de quem sabe tomá-lo! - desafia.
38           Sobe a raiva na garganta da moça, arrastando o medo: - Tome o meu, então! - responde em fúria e gesto. E agarrando a bacia onde seu rosto boia, a lança contra o espelho.
39           A água salta. Estilhaça-se a luz. Estronda a gruta, enquanto dos cristais a prata se espatifa. O ar estala, extingue toda a chama. Esverdinhado o rosto, as mãos esgatinhando o peito, a Dama estremece, se escarna, se esvai. Um grito se estrangula. E estroçada no chão ela estertora.
40           De repente, silêncio e escuridão. Gotas pingam do alto. Um morcego esvoeja.
41           Assustada, a moça foge sobre cacos e poças, tropeça, se levanta, corre, pisando leve enfim o doce musgo.
42           Lá fora, na claridade da manhã que apenas se anuncia, o córrego mantém o antigo trote, água fresca e cantante que parece chamá-la. E a moça se aproxima, se ajoelha, estende o queixo, boca entreaberta para matar a sede. Mas no manso fluir da margem outra boca a recebe. Boca idêntica à sua, que no claro reflexo do seu rosto, de volta lhe sorri.

No texto, sobre o texto, a partir do texto

1.        Observe o 2° período do 1° parágrafo. O que é a luz de prata? Como ela pode estar cega?

2.        O final desse parágrafo diz: “presente o rosto, ausente o que do rosto conhecia.” Você já ouviu alguém dizer que, de repente, não se conheceu? Isso já aconteceu com você? Como isso é possível?

3.        No 5° parágrafo, o lago diz que muitos vão procurar-se nele. O que representa isso? Onde as pessoas costumam procurar-se a si mesmas? E você?

4.        Observe o 2° e 3° períodos do 6° parágrafo. O que representa isso para nós? Podemos dizer que ela tenta fugir da realidade? Em que situações isso pode ser chamado de fuga?

5.        Analise o 3° período do 7° parágrafo. O que significa? Por que está escrito assim?

6.        O próximo período começa assim: “Juntos atravessaram um campo...” De quem a autora está falando?

7.        No 8° parágrafo, temos uma pergunta que apresenta dois sentidos. Quais são eles?

8.        Descreva a caverna onde a moça entrou.

9.        O 15° parágrafo fala em gesto de corisco. O que é isso?

10.     O 32° parágrafo diz que a moça “sabe apenas que não quer afastar-se de si mesma.” Você já se afastou de si mesma(o) alguma vez?

11.     A moça, afinal, recuperou seu reflexo? Que teve de fazer para isso?

12.     Em algum momento ela se perdeu?

13.     Em que momento a moça sentiu medo? E arrependimento?

14.     Mas se seu reflexo era tão importante para ela, como pode ter-se arrependido?

15.     Se havia tantas bacias com rostos na gruta e se nenhum rosto jamais havia saído de lá, por que nenhuma outra moça tinha conseguido encontrar a Dama dos Espelhos?

16.     Perder o reflexo é uma metáfora para algo muito comum em nossos dias. De que modo as pessoas costumam perder sua própria imagem?

17.     A partir dessa ideia, que tipo de pessoa o lago representa? E o córrego?

18.     Como anda a relação entre você e você? Há o risco de que você se perca a si mesmo(a)?

19.     Esse texto traz um monte de ideias sobre nós, a nossa forma de nos vermos a nós mesmos, os riscos de nos perdermos, o amor de cada um por si próprio, etc. Você deve, então, redigir uma dissertação e, no mínimo, 20 linhas, refletindo sobre um desses aspectos, ou alguns deles, ou mesmo todos...

MUDANDO DE ASSUNTO...

20.     No 7° e no 39º parágrafo, a autora brinca com as palavras (é o que chamamos de figuras de linguagem). Identifique essas “brincadeiras”.

21.     Por que outra forma poderíamos substituir a forma verbal “estivera”, no 3° parágrafo?

22.     Observando as orações ao longo do texto, identifique relações de continuidade, consequência, oposição e finalidade entre elas.

23.     Identifique os sujeitos dos verbos marcados no texto.

A ponte

Um conto de Pedro Bandeira (sem o final).

Ele era o melhor. Nunca havia falhado em uma missão, por mais arriscada que tivesse sido. Era capaz de manter-se concentrado em um objetivo em qualquer situação. Nada havia que o distraísse. Nem o sorriso de uma linda mulher, nem o cansaço, nem mesmo o matraquear de uma metralhadora.
Mas  quem o visse naquele momento juraria que aquele era o pescador mais descontraído deste mundo. Alguém que tentava esquecer por algumas horas a brutalidade da guerra.
Sentado à beira do rio, à sombra de uma nogueira frondosa, segurando languidamente um caniço, deixava o tempo passar, como os peixes passavam desinteressados em volta do anzol.
Os peixes tinham uma boa razão para não se interessar pelo anzol. Não havia nenhuma isca enganchada nele. Aquele homem jamais permitiria que um peixe, ao beliscar a isca, distraísse sua atenção do objeto pelo qual ele estava ali, disfarçado de tranqüilo pescador.
Chegara à margem do rio com tempo de sobra, fisgara dois peixes e deixara-os à mostra sobre uma folha de jornal, para o caso de alguém aparecer com alguma especulação. A partir do segundo peixe, mergulhara o anzol sem isca de volta no rio e concentrara-se somente na ponte.
A ponte. Uma construção sólida e longa, passagem estratégica para as tropas e os suprimentos inimigos.
A ponte tinha de ser destruída. Três missões de sabotadores já haviam sido enviadas para dinamitá-la. Especialistas em demolição mais que bem-treinados tinham sido lançados à noite, de pára-quedas, mas fora impossível colocar as cargas de explosivos plásticos nos pilares da estrutura. Aquele era um objetivo muito bem-guardado, cuidadosamente defendido pelo inimigo. Os sabotadores tinham sido facilmente capturados. E fuzilados.
Bombardear a ponte com aviões seria impossível. As defesas antiaéreas do inimigo defendiam-na ainda melhor do que os destacamentos que, dia e noite, a rondavam com seus dobermann farejando cada canto.
A ponte resistia e, com ela, a guerra continuava. Destruí-la era fundamental. Sem ela, a retaguarda do inimigo estaria cortada e ele teria de capitular. O fim da ponte talvez significasse a vitória tão longamente esperada.
Um míssil certeiro poderia ser lançado à distância, mas era impossível garantir a pontaria. E se ele atingisse a vila próxima, mandando pelos ares centenas de inocentes?
Era então necessário que alguém estivesse ali, ao lado da ponte, informando com precisão pelo rádio as coordenadas, orientando os artilheiros, para que o míssil caísse exatamente sobre o alvo.
E esse alguém era ele. O melhor dos espiões. O espião infalível.
Como os que vieram antes dele, descera suavemente em um pára-quedas negro, numa noite de lua nova. Enterrara o pára-quedas e disfarçara de tal modo a cova que fizera, cobrindo-a com as folhas avermelhadas do outono, que até ele teria dificuldade de achar de novo o local. Ele era experiente demais e sabia que, se o pára-quedas fosse descoberto, seria desencadeada uma caça furiosa ao pára-quedista e mesmo ele, como todos os truques, poderia ser encontrado.
Caminhara com naturalidade pela estrada que ia dar na vila e, com os documentos falsificados que trouxera, facilmente se instalara numa pensãozinha, convencendo o proprietário de que era um soldado que fora desmobilizado depois de ter sido ferido na frente de batalha. Dissera que estava ali para descansar, pescar um pouco e esquecer os sofrimentos por que passara. Um bom espião tem de ser um grande mentiroso. E ele era um grande espião.
Depois de cumprida a missão, hospedado na pensãozinha, aguardaria calmamente o fim da guerra.
Aquela seria sua última missão. A maior de todas, a definitiva. Ele deveria informar, pelo microfone embutido num cachimbo, a exata localização da ponte e, permanecendo ao lado dela, dar a ordem para o disparo do míssil. Este era um detalhe importante: o míssil deveria ser disparado exatamente no momento em que um longo comboio de transporte de soldados, tanques e suprimentos estivesse passando sobre a ponte. Isso enfraqueceria ainda mais o inimigo.
Era um sacrifício necessário. Graças a sua missão, a guerra seria abreviada e a morte daqueles soldados poderia ser um dos últimos massacres. A paz significava o fim do morticínio. Milhares de outras vidas seriam poupadas.
Comprou o equipamento necessário para a pesca e, pouco depois do amanhecer, caminhou sem pressa para a margem do rio. O chapéu de lona e os longos cabelos disfarçavam o fone escondido no ouvido direito. E ninguém desconfiaria de que seu cachimbo tivesse um microfone embutido, pois ele poderia até ser aceso, sem que a qualidade do som transmitido fosse alterada. Bastava-lhe murmurar, com o cachimbo entre os dentes, que seus companheiros o ouviriam a quilômetros dali.
Sentou-se na margem, a uns cem metros da ponte. Com o olhar treinado e pequenos instrumentos disfarçados em seu relógio, calculou as coordenadas necessárias para a localização do alvo. Pescou os dois peixes e fez uma pausa para acender cuidadosamente o cachimbo. Em meio às primeiras baforadas, transmitiu as informações à base.
Pelo fone em seu ouvido, veio a resposta:
"Entendido. O míssil estará pronto para disparo em zero, quatro, ponto, zero, zero, minutos. Aguarde o comboio. Nossas informações calculam que ele estará sobre a ponte mais ou menos a zero, sete, ponto, dez minutos. A partir do momento em que você informar, o míssil levará zero, um, ponto, zero, três minutos para atingir o alvo. Passe a informação quando o comboio chegar à metade da ponte. O míssil a alcançará quando ela estiver totalmente coberta pelos caminhões e tanques."
"Certo", respondeu ele num sussurro.
Jogou o anzol sem isca na água e acomodou-se confortavelmente sobre a relva ainda orvalhada. Manteve o cachimbo pendurado no canto da boca e olhou para a ponte. A relva estendia-se em toda a extensão, já meio coberta pelas folhas que o vento derrubava das árvores, cujas copas aos poucos se tornavam vermelho-amareladas, anunciando o inverno. As folhas caíam lentamente e pousavam sobre a grama, que já começava a perder o verde.
Ele gostaria de ter escolhido o disfarce de pintor para registrar numa tela a paz, a beleza que lhe entravam pelos olhos e acariciavam-lhe a alma. Quando terminasse a guerra, talvez ele pudesse se dedicar à pintura. Em criança, sonhara ser um artista. Sua vida, porém, acabara tomando outros rumos. Quando a guerra terminasse... Quem sabe?
Não parecia haver guerra, porém. No ar, só o perfume do rio limpo, da relva, das folhas secas. Não havia o cheiro dos incêndios, da pólvora, das explosões, do desespero, da morte... O friozinho do outono fazia-o sentir-se de bem com a vida, e ele aconchegava-se dentro do blusão grosso, pensando como seria bom voltar ali e pescar de verdade numa manhã como aquela, respirando o mesmo ar perfumado, ouvindo o mesmo sussurro das folhas secas dedilhadas pelo vento, num dueto suave com as águas do rio.
Ao longe, um dos dobermann latiu. Um cão vagabundo respondeu ao chamado em algum ponto da vila. O dobermann latiu de novo, contido por um dos muitos soldados que cercavam a ponte. A guarda era perfeita e parecia ter sido reforçada por causa das tropas que estavam para chegar. Nem uma mosca adversária conseguiria aproximar-se.
Só que aqueles soldados nada podiam fazer para impedir o que estava para acontecer. Em pouco tempo, um sinal dele faria com que até as moscas fossem pulverizadas pelo míssil.
Atrás de si, percebeu um pequeno ruído. Olhou disfarçadamente por sobre o ombro. O barulho era causado por passinhos sobre a relva. Vinda da estrada que margeava o rio, uma figurinha aproximava-se dele:
- Bom dia, pescador.
Fingindo-se surpreendido, ele levantou os olhos.
A primeira que viu foi um sorriso. Um lindo sorriso, numa linda boquinha de uma linda menina. Teria oito, talvez nove anos. Ou seria sete? Especialista em avaliar adversários adultos, ele não era muito bom com crianças. Levou a mão ao cachimbo, desligando o microfone.
- Bom dia, menina - respondeu, com um meio sorriso que ela talvez esperasse encontrar em um inocente pescador.
A menina, rosto, presença, combinava perfeitamente com aquela paisagem de paz, completava com graça a harmonia daquele momento. Ah, se ele fosse um pintor, aquela doce imagem haveria de eternizar-se em uma tela!
- Puxa, você já pegou dois peixes! - continuou ela, como se o homem fosse um velho amigo.
Sem cerimônia alguma, examinou os peixes, com ar de conhecedora. Ele fizera bem em pescar aqueles peixes. A menina não duvidaria do seu disfarce. Na verdade, era pequena demais para desconfiar de qualquer problema ligado à guerra. E sua expressão era pura demais para desconfiar de qualquer coisa.
- Duas trutas. Meu pai também gostava de pescar. Um dia, eu vou aprender a cozinhar. Quando o meu pai trouxer os peixes que ele pesca no fim de semana, eu vou cozinhar para ele. Também vou cozinhar os peixes para você, se você  quiser.
- Eu gostaria muito... Obrigado.
A menina sentou-se na relva, ao lado do espião. Ele não fez nenhum gesto para repeli-la.
- Minha mãe cozinha muito bem. Ela já disse que vai me ensinar. Antes de o papai voltar da guerra, eu já vou saber cozinhar. A mamãe disse que a gente vai fazer uma festa linda para receber o papai.
Ele continuou fazendo-se de atento à linha mergulhada no rio e nada respondeu.
- Você está convidado para a nossa festa. Vai ser linda! Você quer ir?
- Quero. Obrigado pelo convite.
A garota pegou um matinho fino e colocou na boca, como um longo palito de dentes.
- Meu irmãozinho já sabe fazer um assobio com o mato. Eu nunca consigo, mas digo para ele que eu também sei fazer.
Ela mascou o matinho um pouco. Seu olhar fixava-se adiante, no mesmo ponto para onde apontava o olhar dissimulado do espião. Os dois olhavam para a ponte.
- O meu irmãozinho ainda não sabe ler. Mas ele adora ouvir histórias. Todas as noites, a mamãe lê histórias para a gente. Antes da guerra, era o papai que lia. Agora é a mamãe. Quando eu ainda não sabia ler, eu pegava os livros e fingia que lia para o meu irmãozinho. Ele ficava impressionado e ria, ria... Também, eu já sabia de cor e salteado aquelas histórias. Mas agora eu já aprendi a ler. Não preciso mais fingir. E o meu irmãozinho acabou ficando com duas pessoas para ler histórias para ele. Quando o papai voltar, ele vai ter três leitores! Acho que ele nem vai querer aprender a ler. Mas eu acho que ele também já sabe todas aquelas histórias de cor...
A menina falava, falava, ria e voltava a falar, como se conhecesse o pescador há muito tempo.
- Você também está esperando o comboio passar? - perguntou ela.
- Comboio? Que comboio? - devolveu o espião, fingidamente.
- Então você não sabe que vai chegar um comboio com as nossas tropas daqui a pouquinho? Mas, ora, que bobagem! É claro que você não está aqui para ver o comboio. Você veio só pescar, não é?
- É...
- Eu adoro ver os caminhões cheios de soldados! Todos ficam iguaizinhos naqueles uniformes. Acenam para mim quando passam. E eu aceno de volta. Às vezes, eles até jogam uma barra de chocolate.
Ele olhou de lado para aqueles olhinhos que brilhavam com a palavra "chocolate".
- Eu adoro chocolate! Hoje, se eu ganhar uma barra de chocolate, vou comer só um pouquinho. O resto, eu vou levar para o meu irmãozinho e para a mamãe...
O espião lamentou não ter trazido três enormes barras de chocolate para dar à menina. Porcaria de guerra! Precisava terminar logo, para que o racionamento acabasse, para que todos os países pudessem voltar a produzir barras de chocolate em vez de balas de chumbo, para que todas as meninas pudessem ganhar o doce que quisessem e para que fosse possível adoçar a vida de todo mundo, como aquela criança estava adoçando a dele...
- Sabe? - continuou ela, com um brilho ainda mais intenso no olhar. - O meu pai é um ótimo soldado. Eu tenho certeza de que ele não vai ser ferido na guerra. A mamãe sempre fala que ele vai voltar inteirinho. Inteirinho para nós...
O lindo olhar desviou-se do rosto do espião e vagou pelo céu da manhã, pelo cinza-claro do amanhecer do outono. Iluminada por aquele olhar, a cor do céu parecia de primavera.
- Por que você não está fisgando mais nenhum peixe?
- Os peixes gostam de silêncio para morder a isca...
- Ai, desculpe! E eu fico aqui falando e espantando os seus peixes. Vou ficar caladinha, pode deixar... Prometo!
Mas a promessa foi esquecida no instante seguinte:
- O meu pai... Eu gosto tanto do papai! Ele não é soldado de verdade. Ele é relojoeiro. Você precisa ver o meu pai consertando relógios! Todas aquelas peças pequenininhas... ele pega as pecinhas com uma pinça e vai montando direitinho, uma em cima da outra. Acho que não existe um relojoeiro melhor do que ele. Quando eu era pequena eu ficava olhando o papai trabalhar. Se o seu relógio quebrar, pode deixar que o meu pai conserta.
- Obrigado. Vou me lembrar disso.
- O meu pai faz tudo bem. Não conserta só relógios, não. Sabe consertar qualquer coisa. E conta histórias como ninguém. Mas não é só para as crianças que ele conta histórias. Nas festas, lá na vila, é sempre ele quem conta as melhores anedotas. Todo mundo morre de rir do meu pai. E ele canta também. Aprendeu com o vovô. Nas festas da vila, o papai...
E a menina continuou falando daquele super-homem que era o pai dela. Talvez para as outras pessoas ele fosse apenas o relojoeiro da vila, mas para a filha era um super-homem.
O espião sorriu com orgulho do seu próprio trabalho. Muita gente, na certa, nunca compreenderia o que ele estava para fazer. Do seu trabalho, resultaria a morte de alguns, porém a guerra seria abreviada e muitas vidas, poupadas. Talvez até, com a explosão da ponte, naquela manhã, ele estivesse salvando a vida daquele relojoeiro tão querido pela família. A guerra terminaria depressa e o relojoeiro voltaria para casa. Ah, aquela menina merecia que o pai voltasse logo para casa!
- Sabe de uma coisa, pescador? Eu tenho certeza de que vou ganhar uma barra de chocolate hoje.
- É mesmo?
- É. O comboio não vai parar na vila. Vai dar a volta depois da ponte e vai para o outro lado da montanha. Me contaram. Mas eu vou ganhar chocolate hoje.
- Como você pode ter tanta certeza?
Ao longe, os dois ouviram ronco de motores.
O espião acariciou o bojo do cachimbo, pronto para ligar novamente o microfone.
A menina levantou-se. No seu rostinho inocente, havia um colorido mais intenso. E ela procurou colocar o máximo de suspense na próxima declaração:
- Sabe? Eu não lhe contei o principal...
- O principal? Que principal?
Com um ar de triunfo, de alegria incontida, de excitada expectativa, a menina respondeu:
- Eu sei que vou ganhar chocolate hoje. Sabe por quê?
- Por quê?
- Porque o meu pai está naquele comboio!
O coração do espião pulou para a garganta, e ele empalideceu:
- Como?!
O primeiro caminhão surgiu na lombada que antecedia a ponte. O ronco surdo dos potentes motores invadiu o ar.
A menina andou para trás, ainda olhando para ele, com o sorriso mais esperançoso do mundo.
- O meu pai! Hoje eu vou ver o papai!
Voltou-se e correu como um coelhinho em direção à ponte.
O homem ficou um momento inerte, o coração aos pulos, surpreso, pela primeira vez paralisado na iminência de uma ação. Ele, o mais gelado dos espiões. Ele, o espião infalível. Via a menina vencendo facilmente a centena de metros  que os separava da ponte. Via os caminhões e os tanques, do outro lado do rio, aproximando-se pesadamente.
O primeiro tanque chegou quase à beirada da ponte. Logo atrás vinha o primeiro caminhão, carregado de soldados.
O espião, maquinalmente, ligou o microfone embutido no cachimbo.
A menina já chegara à ponte e começava a acenar vigorosamente na direção dos soldados.
De cima do primeiro caminhão, alguns braços fardados acenaram de volta. Qual daqueles soldados seria o pai da menina? Estaria mesmo naquele comboio?
No ouvido do espião, o fonezinho zumbiu:
"Estamos preparados. Já está na  hora. Os caminhões devem estar chegando. O maldito inimigo é muito pontual. Avise quando o comboio aparecer".
Os caminhões entraram na ponte lentamente, pesadamente. A fila de máquinas de guerra era impressionante, longa, poderosa. Os informantes estavam certos. Certos quanto à hora da passagem pela ponte e quanto à importância militar daquele comboio.
A figurinha miúda da menina acenava, saltitava, talvez gritasse alguma coisa, mas era impossível ouvi-la com o barulho dos motores.
O espião estava imóvel, agarrando o cachimbo com força. A outra mão afrouxou, o caniço caiu na água e logo foi levado pela correnteza.
Em seu ouvido, o fone zumbia:
"Responda. Estamos na escuta. O comboio já passou?"
                Ele permaneceu mudo. Seu olhar fixava-se na ponte, hipnotizado pela pequena figura que se agitava freneticamente, chamando a atenção dos soldados.
"Responda. Por que não responde? O comboio já passou?"
Àquela altura, toda a ponte já estava coberta pela imensa coluna de tanques e caminhões.
"Responda. O comboio já passou?"
Sem mover um músculo do rosto, o espião afrouxou um pouco o aperto no cachimbo e respondeu:

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Que situação delicada!

Reflita sobre as possibilidades envolvidas nas escolhas do espião e escreva o final que você considera mais coerente.









quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Venha ver o pôr do Sol (Lygia Fagundes Telles)


ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.

Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.
 Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
 Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que ideia, Ricardo, que ideia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.
Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.
 Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?
 Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui?  perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro.  Hem?!
 Ah, Raquel...  e ele tomou-a pelo braço rindo.
 Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado... Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?
 Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
 Cemitério abandonado, meu anjo. Vivo e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu.
 Ricardo e suas ideias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
 Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
         Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
 Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
 Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
 E você acha que eu iria?
 Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...  disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.
 Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
 Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
 Mas eu pago.
 Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
 Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas ideias vai me consertar a vida.
 Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
 É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
 Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo...
O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
 É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.  Vamos embora, Ricardo, chega.
 Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
 Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
 Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
 É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
 Ele é tão rico assim?
 Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
         Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
 Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
 Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como aguentei tanto, imagine um ano.
 É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
 Nenhum  respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada:  A minha querida esposa, eternas saudades  leu em voz baixa. Fez um muxoxo.  Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
 Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja  disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda  o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
 Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face.  Chega Ricardo, quero ir embora.
 Mais alguns passos...
 Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
 A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para a frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura:  Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
 Sua prima também?
 Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
 Vocês se amaram?
 Ela me amou. Foi a única criatura que...  Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o .
 Eu gostei de você, Ricardo.
 E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
 Esfriou, não? Vamos embora.
 Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
 Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.
 Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
 E lá embaixo?
 Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó  murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
 Todas estas gavetas estão cheias?
 Cheias?...  Sorriu.  Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe  prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
 Vamos, Ricardo, vamos.
 Você está com medo?
 Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:
 A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo se exibir, estou bonita? Estou bonita?...  Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.  Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
 Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
 Pegue, dá para ver muito bem...  Afastou-se para o lado.  Repare nos olhos.
 Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça...  Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.  Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida...  Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
 Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso! Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
 Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.  Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
 Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
 Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!  Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso.  Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
 Boa noite, Raquel.
 Chega, Ricardo! Você vai me pagar!...  gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.  Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!  exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.
 Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.
 Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
 Não...
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
 NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.