terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A ponte

Um conto de Pedro Bandeira (sem o final).

Ele era o melhor. Nunca havia falhado em uma missão, por mais arriscada que tivesse sido. Era capaz de manter-se concentrado em um objetivo em qualquer situação. Nada havia que o distraísse. Nem o sorriso de uma linda mulher, nem o cansaço, nem mesmo o matraquear de uma metralhadora.
Mas  quem o visse naquele momento juraria que aquele era o pescador mais descontraído deste mundo. Alguém que tentava esquecer por algumas horas a brutalidade da guerra.
Sentado à beira do rio, à sombra de uma nogueira frondosa, segurando languidamente um caniço, deixava o tempo passar, como os peixes passavam desinteressados em volta do anzol.
Os peixes tinham uma boa razão para não se interessar pelo anzol. Não havia nenhuma isca enganchada nele. Aquele homem jamais permitiria que um peixe, ao beliscar a isca, distraísse sua atenção do objeto pelo qual ele estava ali, disfarçado de tranqüilo pescador.
Chegara à margem do rio com tempo de sobra, fisgara dois peixes e deixara-os à mostra sobre uma folha de jornal, para o caso de alguém aparecer com alguma especulação. A partir do segundo peixe, mergulhara o anzol sem isca de volta no rio e concentrara-se somente na ponte.
A ponte. Uma construção sólida e longa, passagem estratégica para as tropas e os suprimentos inimigos.
A ponte tinha de ser destruída. Três missões de sabotadores já haviam sido enviadas para dinamitá-la. Especialistas em demolição mais que bem-treinados tinham sido lançados à noite, de pára-quedas, mas fora impossível colocar as cargas de explosivos plásticos nos pilares da estrutura. Aquele era um objetivo muito bem-guardado, cuidadosamente defendido pelo inimigo. Os sabotadores tinham sido facilmente capturados. E fuzilados.
Bombardear a ponte com aviões seria impossível. As defesas antiaéreas do inimigo defendiam-na ainda melhor do que os destacamentos que, dia e noite, a rondavam com seus dobermann farejando cada canto.
A ponte resistia e, com ela, a guerra continuava. Destruí-la era fundamental. Sem ela, a retaguarda do inimigo estaria cortada e ele teria de capitular. O fim da ponte talvez significasse a vitória tão longamente esperada.
Um míssil certeiro poderia ser lançado à distância, mas era impossível garantir a pontaria. E se ele atingisse a vila próxima, mandando pelos ares centenas de inocentes?
Era então necessário que alguém estivesse ali, ao lado da ponte, informando com precisão pelo rádio as coordenadas, orientando os artilheiros, para que o míssil caísse exatamente sobre o alvo.
E esse alguém era ele. O melhor dos espiões. O espião infalível.
Como os que vieram antes dele, descera suavemente em um pára-quedas negro, numa noite de lua nova. Enterrara o pára-quedas e disfarçara de tal modo a cova que fizera, cobrindo-a com as folhas avermelhadas do outono, que até ele teria dificuldade de achar de novo o local. Ele era experiente demais e sabia que, se o pára-quedas fosse descoberto, seria desencadeada uma caça furiosa ao pára-quedista e mesmo ele, como todos os truques, poderia ser encontrado.
Caminhara com naturalidade pela estrada que ia dar na vila e, com os documentos falsificados que trouxera, facilmente se instalara numa pensãozinha, convencendo o proprietário de que era um soldado que fora desmobilizado depois de ter sido ferido na frente de batalha. Dissera que estava ali para descansar, pescar um pouco e esquecer os sofrimentos por que passara. Um bom espião tem de ser um grande mentiroso. E ele era um grande espião.
Depois de cumprida a missão, hospedado na pensãozinha, aguardaria calmamente o fim da guerra.
Aquela seria sua última missão. A maior de todas, a definitiva. Ele deveria informar, pelo microfone embutido num cachimbo, a exata localização da ponte e, permanecendo ao lado dela, dar a ordem para o disparo do míssil. Este era um detalhe importante: o míssil deveria ser disparado exatamente no momento em que um longo comboio de transporte de soldados, tanques e suprimentos estivesse passando sobre a ponte. Isso enfraqueceria ainda mais o inimigo.
Era um sacrifício necessário. Graças a sua missão, a guerra seria abreviada e a morte daqueles soldados poderia ser um dos últimos massacres. A paz significava o fim do morticínio. Milhares de outras vidas seriam poupadas.
Comprou o equipamento necessário para a pesca e, pouco depois do amanhecer, caminhou sem pressa para a margem do rio. O chapéu de lona e os longos cabelos disfarçavam o fone escondido no ouvido direito. E ninguém desconfiaria de que seu cachimbo tivesse um microfone embutido, pois ele poderia até ser aceso, sem que a qualidade do som transmitido fosse alterada. Bastava-lhe murmurar, com o cachimbo entre os dentes, que seus companheiros o ouviriam a quilômetros dali.
Sentou-se na margem, a uns cem metros da ponte. Com o olhar treinado e pequenos instrumentos disfarçados em seu relógio, calculou as coordenadas necessárias para a localização do alvo. Pescou os dois peixes e fez uma pausa para acender cuidadosamente o cachimbo. Em meio às primeiras baforadas, transmitiu as informações à base.
Pelo fone em seu ouvido, veio a resposta:
"Entendido. O míssil estará pronto para disparo em zero, quatro, ponto, zero, zero, minutos. Aguarde o comboio. Nossas informações calculam que ele estará sobre a ponte mais ou menos a zero, sete, ponto, dez minutos. A partir do momento em que você informar, o míssil levará zero, um, ponto, zero, três minutos para atingir o alvo. Passe a informação quando o comboio chegar à metade da ponte. O míssil a alcançará quando ela estiver totalmente coberta pelos caminhões e tanques."
"Certo", respondeu ele num sussurro.
Jogou o anzol sem isca na água e acomodou-se confortavelmente sobre a relva ainda orvalhada. Manteve o cachimbo pendurado no canto da boca e olhou para a ponte. A relva estendia-se em toda a extensão, já meio coberta pelas folhas que o vento derrubava das árvores, cujas copas aos poucos se tornavam vermelho-amareladas, anunciando o inverno. As folhas caíam lentamente e pousavam sobre a grama, que já começava a perder o verde.
Ele gostaria de ter escolhido o disfarce de pintor para registrar numa tela a paz, a beleza que lhe entravam pelos olhos e acariciavam-lhe a alma. Quando terminasse a guerra, talvez ele pudesse se dedicar à pintura. Em criança, sonhara ser um artista. Sua vida, porém, acabara tomando outros rumos. Quando a guerra terminasse... Quem sabe?
Não parecia haver guerra, porém. No ar, só o perfume do rio limpo, da relva, das folhas secas. Não havia o cheiro dos incêndios, da pólvora, das explosões, do desespero, da morte... O friozinho do outono fazia-o sentir-se de bem com a vida, e ele aconchegava-se dentro do blusão grosso, pensando como seria bom voltar ali e pescar de verdade numa manhã como aquela, respirando o mesmo ar perfumado, ouvindo o mesmo sussurro das folhas secas dedilhadas pelo vento, num dueto suave com as águas do rio.
Ao longe, um dos dobermann latiu. Um cão vagabundo respondeu ao chamado em algum ponto da vila. O dobermann latiu de novo, contido por um dos muitos soldados que cercavam a ponte. A guarda era perfeita e parecia ter sido reforçada por causa das tropas que estavam para chegar. Nem uma mosca adversária conseguiria aproximar-se.
Só que aqueles soldados nada podiam fazer para impedir o que estava para acontecer. Em pouco tempo, um sinal dele faria com que até as moscas fossem pulverizadas pelo míssil.
Atrás de si, percebeu um pequeno ruído. Olhou disfarçadamente por sobre o ombro. O barulho era causado por passinhos sobre a relva. Vinda da estrada que margeava o rio, uma figurinha aproximava-se dele:
- Bom dia, pescador.
Fingindo-se surpreendido, ele levantou os olhos.
A primeira que viu foi um sorriso. Um lindo sorriso, numa linda boquinha de uma linda menina. Teria oito, talvez nove anos. Ou seria sete? Especialista em avaliar adversários adultos, ele não era muito bom com crianças. Levou a mão ao cachimbo, desligando o microfone.
- Bom dia, menina - respondeu, com um meio sorriso que ela talvez esperasse encontrar em um inocente pescador.
A menina, rosto, presença, combinava perfeitamente com aquela paisagem de paz, completava com graça a harmonia daquele momento. Ah, se ele fosse um pintor, aquela doce imagem haveria de eternizar-se em uma tela!
- Puxa, você já pegou dois peixes! - continuou ela, como se o homem fosse um velho amigo.
Sem cerimônia alguma, examinou os peixes, com ar de conhecedora. Ele fizera bem em pescar aqueles peixes. A menina não duvidaria do seu disfarce. Na verdade, era pequena demais para desconfiar de qualquer problema ligado à guerra. E sua expressão era pura demais para desconfiar de qualquer coisa.
- Duas trutas. Meu pai também gostava de pescar. Um dia, eu vou aprender a cozinhar. Quando o meu pai trouxer os peixes que ele pesca no fim de semana, eu vou cozinhar para ele. Também vou cozinhar os peixes para você, se você  quiser.
- Eu gostaria muito... Obrigado.
A menina sentou-se na relva, ao lado do espião. Ele não fez nenhum gesto para repeli-la.
- Minha mãe cozinha muito bem. Ela já disse que vai me ensinar. Antes de o papai voltar da guerra, eu já vou saber cozinhar. A mamãe disse que a gente vai fazer uma festa linda para receber o papai.
Ele continuou fazendo-se de atento à linha mergulhada no rio e nada respondeu.
- Você está convidado para a nossa festa. Vai ser linda! Você quer ir?
- Quero. Obrigado pelo convite.
A garota pegou um matinho fino e colocou na boca, como um longo palito de dentes.
- Meu irmãozinho já sabe fazer um assobio com o mato. Eu nunca consigo, mas digo para ele que eu também sei fazer.
Ela mascou o matinho um pouco. Seu olhar fixava-se adiante, no mesmo ponto para onde apontava o olhar dissimulado do espião. Os dois olhavam para a ponte.
- O meu irmãozinho ainda não sabe ler. Mas ele adora ouvir histórias. Todas as noites, a mamãe lê histórias para a gente. Antes da guerra, era o papai que lia. Agora é a mamãe. Quando eu ainda não sabia ler, eu pegava os livros e fingia que lia para o meu irmãozinho. Ele ficava impressionado e ria, ria... Também, eu já sabia de cor e salteado aquelas histórias. Mas agora eu já aprendi a ler. Não preciso mais fingir. E o meu irmãozinho acabou ficando com duas pessoas para ler histórias para ele. Quando o papai voltar, ele vai ter três leitores! Acho que ele nem vai querer aprender a ler. Mas eu acho que ele também já sabe todas aquelas histórias de cor...
A menina falava, falava, ria e voltava a falar, como se conhecesse o pescador há muito tempo.
- Você também está esperando o comboio passar? - perguntou ela.
- Comboio? Que comboio? - devolveu o espião, fingidamente.
- Então você não sabe que vai chegar um comboio com as nossas tropas daqui a pouquinho? Mas, ora, que bobagem! É claro que você não está aqui para ver o comboio. Você veio só pescar, não é?
- É...
- Eu adoro ver os caminhões cheios de soldados! Todos ficam iguaizinhos naqueles uniformes. Acenam para mim quando passam. E eu aceno de volta. Às vezes, eles até jogam uma barra de chocolate.
Ele olhou de lado para aqueles olhinhos que brilhavam com a palavra "chocolate".
- Eu adoro chocolate! Hoje, se eu ganhar uma barra de chocolate, vou comer só um pouquinho. O resto, eu vou levar para o meu irmãozinho e para a mamãe...
O espião lamentou não ter trazido três enormes barras de chocolate para dar à menina. Porcaria de guerra! Precisava terminar logo, para que o racionamento acabasse, para que todos os países pudessem voltar a produzir barras de chocolate em vez de balas de chumbo, para que todas as meninas pudessem ganhar o doce que quisessem e para que fosse possível adoçar a vida de todo mundo, como aquela criança estava adoçando a dele...
- Sabe? - continuou ela, com um brilho ainda mais intenso no olhar. - O meu pai é um ótimo soldado. Eu tenho certeza de que ele não vai ser ferido na guerra. A mamãe sempre fala que ele vai voltar inteirinho. Inteirinho para nós...
O lindo olhar desviou-se do rosto do espião e vagou pelo céu da manhã, pelo cinza-claro do amanhecer do outono. Iluminada por aquele olhar, a cor do céu parecia de primavera.
- Por que você não está fisgando mais nenhum peixe?
- Os peixes gostam de silêncio para morder a isca...
- Ai, desculpe! E eu fico aqui falando e espantando os seus peixes. Vou ficar caladinha, pode deixar... Prometo!
Mas a promessa foi esquecida no instante seguinte:
- O meu pai... Eu gosto tanto do papai! Ele não é soldado de verdade. Ele é relojoeiro. Você precisa ver o meu pai consertando relógios! Todas aquelas peças pequenininhas... ele pega as pecinhas com uma pinça e vai montando direitinho, uma em cima da outra. Acho que não existe um relojoeiro melhor do que ele. Quando eu era pequena eu ficava olhando o papai trabalhar. Se o seu relógio quebrar, pode deixar que o meu pai conserta.
- Obrigado. Vou me lembrar disso.
- O meu pai faz tudo bem. Não conserta só relógios, não. Sabe consertar qualquer coisa. E conta histórias como ninguém. Mas não é só para as crianças que ele conta histórias. Nas festas, lá na vila, é sempre ele quem conta as melhores anedotas. Todo mundo morre de rir do meu pai. E ele canta também. Aprendeu com o vovô. Nas festas da vila, o papai...
E a menina continuou falando daquele super-homem que era o pai dela. Talvez para as outras pessoas ele fosse apenas o relojoeiro da vila, mas para a filha era um super-homem.
O espião sorriu com orgulho do seu próprio trabalho. Muita gente, na certa, nunca compreenderia o que ele estava para fazer. Do seu trabalho, resultaria a morte de alguns, porém a guerra seria abreviada e muitas vidas, poupadas. Talvez até, com a explosão da ponte, naquela manhã, ele estivesse salvando a vida daquele relojoeiro tão querido pela família. A guerra terminaria depressa e o relojoeiro voltaria para casa. Ah, aquela menina merecia que o pai voltasse logo para casa!
- Sabe de uma coisa, pescador? Eu tenho certeza de que vou ganhar uma barra de chocolate hoje.
- É mesmo?
- É. O comboio não vai parar na vila. Vai dar a volta depois da ponte e vai para o outro lado da montanha. Me contaram. Mas eu vou ganhar chocolate hoje.
- Como você pode ter tanta certeza?
Ao longe, os dois ouviram ronco de motores.
O espião acariciou o bojo do cachimbo, pronto para ligar novamente o microfone.
A menina levantou-se. No seu rostinho inocente, havia um colorido mais intenso. E ela procurou colocar o máximo de suspense na próxima declaração:
- Sabe? Eu não lhe contei o principal...
- O principal? Que principal?
Com um ar de triunfo, de alegria incontida, de excitada expectativa, a menina respondeu:
- Eu sei que vou ganhar chocolate hoje. Sabe por quê?
- Por quê?
- Porque o meu pai está naquele comboio!
O coração do espião pulou para a garganta, e ele empalideceu:
- Como?!
O primeiro caminhão surgiu na lombada que antecedia a ponte. O ronco surdo dos potentes motores invadiu o ar.
A menina andou para trás, ainda olhando para ele, com o sorriso mais esperançoso do mundo.
- O meu pai! Hoje eu vou ver o papai!
Voltou-se e correu como um coelhinho em direção à ponte.
O homem ficou um momento inerte, o coração aos pulos, surpreso, pela primeira vez paralisado na iminência de uma ação. Ele, o mais gelado dos espiões. Ele, o espião infalível. Via a menina vencendo facilmente a centena de metros  que os separava da ponte. Via os caminhões e os tanques, do outro lado do rio, aproximando-se pesadamente.
O primeiro tanque chegou quase à beirada da ponte. Logo atrás vinha o primeiro caminhão, carregado de soldados.
O espião, maquinalmente, ligou o microfone embutido no cachimbo.
A menina já chegara à ponte e começava a acenar vigorosamente na direção dos soldados.
De cima do primeiro caminhão, alguns braços fardados acenaram de volta. Qual daqueles soldados seria o pai da menina? Estaria mesmo naquele comboio?
No ouvido do espião, o fonezinho zumbiu:
"Estamos preparados. Já está na  hora. Os caminhões devem estar chegando. O maldito inimigo é muito pontual. Avise quando o comboio aparecer".
Os caminhões entraram na ponte lentamente, pesadamente. A fila de máquinas de guerra era impressionante, longa, poderosa. Os informantes estavam certos. Certos quanto à hora da passagem pela ponte e quanto à importância militar daquele comboio.
A figurinha miúda da menina acenava, saltitava, talvez gritasse alguma coisa, mas era impossível ouvi-la com o barulho dos motores.
O espião estava imóvel, agarrando o cachimbo com força. A outra mão afrouxou, o caniço caiu na água e logo foi levado pela correnteza.
Em seu ouvido, o fone zumbia:
"Responda. Estamos na escuta. O comboio já passou?"
                Ele permaneceu mudo. Seu olhar fixava-se na ponte, hipnotizado pela pequena figura que se agitava freneticamente, chamando a atenção dos soldados.
"Responda. Por que não responde? O comboio já passou?"
Àquela altura, toda a ponte já estava coberta pela imensa coluna de tanques e caminhões.
"Responda. O comboio já passou?"
Sem mover um músculo do rosto, o espião afrouxou um pouco o aperto no cachimbo e respondeu:

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Que situação delicada!

Reflita sobre as possibilidades envolvidas nas escolhas do espião e escreva o final que você considera mais coerente.









Um comentário:

  1. Eu li essa história pela primeira vez num livro da sétima série, no ano de 2001.

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