terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

À PROCURA DE UM REFLEXO

Conto de Marina Colasanti
Publicado no livro: Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento.
                                                                         (Rio: Nórdica, 1982)

1             De repente, uma manhã, procurando-se no espelho para tecer tranças, não se encontrou. A luz de prata, cega, nada lhe devolvia. Nem traços, nem sombra, nem reflexos. Inútil passar um pano no espelho. Inútil passar as mãos no rosto. Por mais que sentisse a pele sob os dedos, ali estava ela como se não estivesse, presente o rosto, ausente o que do rosto conhecia.
2             - Imagem minha, - murmurou aflita, - onde está você?
3             E se tivesse ficado esquecida no lago, onde ainda no dia anterior estivera se olhando? Em susto, correu pelos jardins, temendo pelo rosto abandonado, flutuando entre nenúfares.
4             - Lago, lago, que fez você com a imagem que ontem deitei na tua água? - perguntou. E duas lágrimas quebraram a lisura da margem.
5             - Como quer que eu saiba, se tantos vêm se procurar em mim? - respondeu o lago desdenhoso. - Talvez tenha sido levada pelo córrego, com outras miudezas, - acrescentou. E com a fidalguia de quem ajeita um manto, ondeou a superfície bordada de reflexos.
6             Impossível para a moça encontrar sua imagem na espuma que o córrego batia de pedra em pedra. Impossível aceitar que estivesse despedaçada. Mais fácil acreditar que havia descido a corrente.
7             Descalçou os sapatos e, com os tornozelos trançados em tantos nós de água, seguiu pelo córrego. Em cada remanso, em cada refluxo, em cada redemoinho procurou rosto ou rasto. Sem que porém nada lhe dissesse, esteve aqui. Juntos atravessaram um campo, rodearam em curvas as primeiras árvores da floresta, descansaram  na clareira. Juntos entraram na caverna.
8             Nem bem percebeu que entrava, tão grande a boca, tão verde o musgo que a cobria. Andou ainda um pouco lá dentro, hesitante entre tantos rumos. Mas logo fez-se frio. E a escuridão ao redor. Gotas pingavam do alto, gemendo nas poças em que o córrego parecia desfazer-se. O medo, entre rochas, bateu asas. Por onde tinha vindo? Olhou em volta, procurou atrás de si. Tudo era tão semelhante que não conseguia reconhecer os caminhos. Só lá adiante, além dos arcos formados pela pedra, viu brilhar a claridade.
9             - Talvez por ali, - pensou, reconfortada.
10           Porém, superado o primeiro arco, e o segundo, chegando enfim à luz, a moça achou-se frente a um imenso salão de gruta onde centenas de espelhos cobriam as paredes, centenas de velas brilhavam acesas. E diante de cada espelho, sobre pedestais, repousavam bacias de prata.
11           Atraída por aquele estranho lugar, desceu dois degraus, caminhou até o primeiro pedestal, e já se levantava na ponta dos pés para olhar dentro da bacia, quando:
12           - Com que então, veio me visitar! - ricocheteou estrídula uma voz, batendo de espelho em espelho.
13           Um susto, um salto. Só nesse momento a moça percebeu a Dama dos Espelhos, tão bela e cintilante que entre brilhos se confundia. Por um instante temendo aquela estranha senhora, desculpou-se, não sabia que ali morasse alguém, não pretendia...
14           - Mas eu gosto da sua visita, - cortou a Dama com estranho sorriso. - Há tanto vivo aqui sozinha sem que ninguém venha me ver... Acho mesmo que você deve ficar!
15           E levantando a mão com um gesto de corisco, apontou para a entrada da gruta. Sem ruído, um espelho desceu barrando o caminho.
16           - E agora, jovem curiosa, - ordenou a voz cortante, - olhe bem aquilo que tanto queria ver.
17           Assustada, debruça-se a moça sobre a bacia. Para descobri-la cheia de água, clara poça em que um rosto de mulher flutua. Não o seu. Pálido rosto sem tranças, que não a olha, encerrado no círculo de prata.
18           - De quem é esse rosto, senhora? - pergunta a moça tentando controlar o visgo do espanto.
19           - É meu! - rompe em farpas a risada ma Dama.
20           Súbito uma das velas se apaga. No espelho atrás dela, um rosto de mulher aparece e se inclina, oferecendo ao pente seus cabelos. Não ri mais a Dama. Exata, avança para o espelho, e quase sem tocá-lo colhe nos dedos as beiras da imagem, lentamente desprendendo-a do vidro. Por um instante, estremece no ar aquele rosto, logo pousado sobre a água, onde nunca mais penteará os cabelos.
21           - Então foi isso que aconteceu com o meu reflexo! - em ânsia, a moça corre de bacia em bacia, chamando o próprio nome, procurando. E em cada quieto olho d’água se defronta com uma nova imagem, sem que nenhuma seja aquela que mais deseja.
22           Até que:
23           - Ali! Comanda a Dama, indicando.
24           Debruçada, afinal, sobre si mesma, traço a traço, irmã gêmea, a moça se reencontra. Mas por que não brilham de alegria os olhos que ela vê e não parecem vê-la? Por que não lhe devolve o sorriso a boca tão séria?
25           Ergue-se a moça, sem que o rosto na água lhe siga o movimento. Flutuam as tranças louras, como algas. E nada altera a expressão prisioneira.
26           - Por favor, senhora, devolva meu reflexo.
27                 - Impossível! - lacera o grito da Dama.
28                 E mais calma:
29           - Nenhum reflexo jamais saiu daqui.
30           Depois, no longo silêncio que se faz:
31           - Antes que a noite acabe, você compreenderá por quê.
32           A noite? Já é noite, então? Trancada na gruta entre velas acesas, a moça não sabe do tempo. Sabe apenas que não quer afastar-se de si mesma, deixar seu rosto sozinho na água fria. E ali, junto dele, sem ousar acariciá-lo com medo de romper-lhe os traços, deixa as horas passarem em silêncio.
33           Longe, num canto sombrio, a Dama parece ocultar-se, enquanto o tempo se gasta com a cera.
34           Cochila quase a moça, quando, de repente, a Dama se move, saindo lá do canto. Mas entre luz e sombra, outro é o seu porte. Encurvados os ombros, a cabeça pende, e mechas brancas escapam sob a coroa.
35           Trêmula, arquejante, a Dama anda entre espelhos e pedestais. Diante de cada bacia pára quase poupando forças, olha, e segue. Nenhuma a detém longamente. Até que um reflexo parece atraí-la mais que os outros. E ela rodeia a prata com as mãos, num último esforço a levanta acima da cabeça, despejando lentamente a água sobre seu rosto.
36           Rosto que a moça boquiaberta vê transformar-se aos poucos, fazer-se jovem, dono das feições que antes boiavam em silêncio.
37           Ri a Dama, triunfante: - Um reflexo é de quem sabe tomá-lo! - desafia.
38           Sobe a raiva na garganta da moça, arrastando o medo: - Tome o meu, então! - responde em fúria e gesto. E agarrando a bacia onde seu rosto boia, a lança contra o espelho.
39           A água salta. Estilhaça-se a luz. Estronda a gruta, enquanto dos cristais a prata se espatifa. O ar estala, extingue toda a chama. Esverdinhado o rosto, as mãos esgatinhando o peito, a Dama estremece, se escarna, se esvai. Um grito se estrangula. E estroçada no chão ela estertora.
40           De repente, silêncio e escuridão. Gotas pingam do alto. Um morcego esvoeja.
41           Assustada, a moça foge sobre cacos e poças, tropeça, se levanta, corre, pisando leve enfim o doce musgo.
42           Lá fora, na claridade da manhã que apenas se anuncia, o córrego mantém o antigo trote, água fresca e cantante que parece chamá-la. E a moça se aproxima, se ajoelha, estende o queixo, boca entreaberta para matar a sede. Mas no manso fluir da margem outra boca a recebe. Boca idêntica à sua, que no claro reflexo do seu rosto, de volta lhe sorri.

No texto, sobre o texto, a partir do texto

1.        Observe o 2° período do 1° parágrafo. O que é a luz de prata? Como ela pode estar cega?

2.        O final desse parágrafo diz: “presente o rosto, ausente o que do rosto conhecia.” Você já ouviu alguém dizer que, de repente, não se conheceu? Isso já aconteceu com você? Como isso é possível?

3.        No 5° parágrafo, o lago diz que muitos vão procurar-se nele. O que representa isso? Onde as pessoas costumam procurar-se a si mesmas? E você?

4.        Observe o 2° e 3° períodos do 6° parágrafo. O que representa isso para nós? Podemos dizer que ela tenta fugir da realidade? Em que situações isso pode ser chamado de fuga?

5.        Analise o 3° período do 7° parágrafo. O que significa? Por que está escrito assim?

6.        O próximo período começa assim: “Juntos atravessaram um campo...” De quem a autora está falando?

7.        No 8° parágrafo, temos uma pergunta que apresenta dois sentidos. Quais são eles?

8.        Descreva a caverna onde a moça entrou.

9.        O 15° parágrafo fala em gesto de corisco. O que é isso?

10.     O 32° parágrafo diz que a moça “sabe apenas que não quer afastar-se de si mesma.” Você já se afastou de si mesma(o) alguma vez?

11.     A moça, afinal, recuperou seu reflexo? Que teve de fazer para isso?

12.     Em algum momento ela se perdeu?

13.     Em que momento a moça sentiu medo? E arrependimento?

14.     Mas se seu reflexo era tão importante para ela, como pode ter-se arrependido?

15.     Se havia tantas bacias com rostos na gruta e se nenhum rosto jamais havia saído de lá, por que nenhuma outra moça tinha conseguido encontrar a Dama dos Espelhos?

16.     Perder o reflexo é uma metáfora para algo muito comum em nossos dias. De que modo as pessoas costumam perder sua própria imagem?

17.     A partir dessa ideia, que tipo de pessoa o lago representa? E o córrego?

18.     Como anda a relação entre você e você? Há o risco de que você se perca a si mesmo(a)?

19.     Esse texto traz um monte de ideias sobre nós, a nossa forma de nos vermos a nós mesmos, os riscos de nos perdermos, o amor de cada um por si próprio, etc. Você deve, então, redigir uma dissertação e, no mínimo, 20 linhas, refletindo sobre um desses aspectos, ou alguns deles, ou mesmo todos...

MUDANDO DE ASSUNTO...

20.     No 7° e no 39º parágrafo, a autora brinca com as palavras (é o que chamamos de figuras de linguagem). Identifique essas “brincadeiras”.

21.     Por que outra forma poderíamos substituir a forma verbal “estivera”, no 3° parágrafo?

22.     Observando as orações ao longo do texto, identifique relações de continuidade, consequência, oposição e finalidade entre elas.

23.     Identifique os sujeitos dos verbos marcados no texto.

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