Conto de Marina Colasanti
Publicado no livro: Doze Reis e a Moça no
Labirinto do Vento.
(Rio: Nórdica, 1982)
1 De repente, uma manhã,
procurando-se no espelho para tecer tranças, não se encontrou. A luz de prata,
cega, nada lhe devolvia. Nem traços, nem sombra, nem reflexos. Inútil passar um
pano no espelho. Inútil passar as mãos no rosto. Por mais que sentisse a pele
sob os dedos, ali estava ela como se não estivesse, presente o rosto, ausente o
que do rosto conhecia.
2 - Imagem minha, - murmurou aflita, - onde está você?
3 E se tivesse ficado esquecida no lago, onde ainda no dia
anterior estivera se olhando? Em susto, correu pelos jardins, temendo pelo
rosto abandonado, flutuando entre nenúfares.
4 - Lago, lago, que fez você com a imagem que ontem
deitei na tua água? - perguntou. E duas lágrimas quebraram a lisura da margem.
5 - Como quer que eu saiba, se tantos vêm se procurar em
mim? - respondeu o lago
desdenhoso. - Talvez tenha sido levada
pelo córrego, com outras miudezas, - acrescentou. E com a fidalguia de quem ajeita um
manto, ondeou a
superfície bordada de reflexos.
6 Impossível para a moça encontrar
sua imagem na espuma que o córrego batia de pedra em pedra. Impossível aceitar que estivesse
despedaçada. Mais fácil acreditar que havia descido a corrente.
7 Descalçou os sapatos e, com os
tornozelos trançados em tantos nós de água, seguiu pelo córrego. Em cada remanso, em cada
refluxo, em cada redemoinho procurou rosto ou rasto. Sem que porém nada lhe
dissesse, esteve aqui. Juntos atravessaram um campo, rodearam em curvas as
primeiras árvores da floresta, descansaram na clareira. Juntos entraram na caverna.
8 Nem bem percebeu que entrava, tão
grande a boca, tão verde o musgo que a cobria. Andou ainda um pouco lá dentro, hesitante entre tantos
rumos. Mas logo fez-se frio. E a escuridão ao redor. Gotas pingavam do alto,
gemendo nas poças em que o córrego parecia desfazer-se. O medo, entre rochas,
bateu asas. Por onde tinha vindo? Olhou em volta, procurou atrás de si. Tudo
era tão semelhante que não conseguia reconhecer os caminhos. Só lá adiante,
além dos arcos formados pela pedra, viu brilhar a claridade.
9 - Talvez por ali, - pensou, reconfortada.
10 Porém, superado o
primeiro arco, e o segundo, chegando enfim à luz, a moça achou-se frente a um
imenso salão de gruta onde centenas de espelhos cobriam as paredes, centenas de
velas brilhavam acesas. E diante de cada espelho, sobre pedestais, repousavam bacias de prata.
11 Atraída por aquele
estranho lugar, desceu dois degraus, caminhou até o primeiro pedestal, e já se
levantava na ponta dos pés para olhar dentro da bacia, quando:
12 - Com que então, veio me visitar! - ricocheteou estrídula uma voz, batendo de espelho em
espelho.
13 Um susto, um salto. Só
nesse momento a moça percebeu a Dama dos Espelhos, tão bela e cintilante que
entre brilhos se confundia. Por um instante temendo aquela estranha senhora,
desculpou-se, não sabia que ali morasse alguém, não pretendia...
14 - Mas eu gosto da sua visita, - cortou a Dama com estranho sorriso. - Há tanto vivo aqui sozinha sem que ninguém venha me
ver... Acho mesmo que você deve ficar!
15 E levantando a mão com
um gesto de corisco, apontou para a entrada da gruta. Sem ruído, um espelho
desceu barrando o caminho.
16 - E agora, jovem curiosa, - ordenou a voz cortante, - olhe bem aquilo que tanto queria ver.
17 Assustada, debruça-se a
moça sobre a bacia. Para descobri-la cheia de água, clara poça em que um rosto
de mulher flutua. Não o seu. Pálido rosto sem tranças, que não a olha,
encerrado no círculo de prata.
18 - De quem é esse rosto, senhora? - pergunta a moça tentando controlar o visgo do
espanto.
19 - É meu! - rompe
em farpas a risada ma Dama.
20 Súbito uma das velas se
apaga. No espelho atrás dela, um rosto de mulher aparece e se inclina, oferecendo
ao pente seus cabelos. Não ri mais a Dama. Exata, avança para o espelho, e
quase sem tocá-lo colhe nos dedos as beiras da imagem, lentamente
desprendendo-a do vidro. Por um instante, estremece no ar aquele rosto, logo
pousado sobre a água, onde nunca mais penteará os cabelos.
21 - Então foi isso que aconteceu com o meu reflexo! - em ânsia, a moça corre de bacia em bacia, chamando o
próprio nome, procurando. E em cada quieto olho d’água se defronta com uma nova
imagem, sem que nenhuma seja aquela que mais deseja.
22 Até que:
23 - Ali! Comanda a Dama, indicando.
24 Debruçada, afinal,
sobre si mesma, traço a traço, irmã gêmea, a moça se reencontra. Mas por que
não brilham de alegria
os olhos que ela vê e não parecem vê-la? Por que não lhe devolve o sorriso a boca tão
séria?
25 Ergue-se a moça, sem
que o rosto na água lhe siga
o movimento. Flutuam as tranças louras, como algas. E nada altera a expressão
prisioneira.
26 - Por favor, senhora, devolva meu reflexo.
27
- Impossível! - lacera o grito da Dama.
28
E mais calma:
29 - Nenhum reflexo jamais saiu daqui.
30 Depois, no longo
silêncio que se faz:
31 - Antes que a noite acabe, você compreenderá por quê.
32 A noite? Já é noite,
então? Trancada na gruta entre velas acesas, a moça não sabe do tempo. Sabe
apenas que não quer afastar-se de si mesma, deixar seu rosto sozinho na água
fria. E ali, junto dele, sem ousar acariciá-lo com medo de romper-lhe os
traços, deixa as horas passarem em silêncio.
33 Longe, num canto
sombrio, a Dama parece ocultar-se, enquanto o tempo se gasta com a cera.
34 Cochila quase a moça,
quando, de repente, a Dama se move, saindo lá do canto. Mas entre luz e sombra,
outro é o seu porte. Encurvados os ombros, a cabeça pende, e mechas brancas
escapam sob a coroa.
35 Trêmula, arquejante, a
Dama anda entre espelhos e pedestais. Diante de cada bacia pára quase poupando
forças, olha, e segue. Nenhuma a detém longamente. Até que um reflexo parece
atraí-la mais que os outros. E ela rodeia a prata com as mãos, num último
esforço a levanta acima da cabeça, despejando lentamente a água sobre seu
rosto.
36 Rosto que a moça
boquiaberta vê transformar-se aos poucos, fazer-se jovem, dono das feições que
antes boiavam em silêncio.
37 Ri a Dama, triunfante: - Um reflexo é de quem sabe tomá-lo! - desafia.
38 Sobe a raiva na
garganta da moça, arrastando o medo: - Tome o meu, então! - responde em fúria e gesto. E agarrando a bacia onde
seu rosto boia, a lança contra o espelho.
39 A água salta.
Estilhaça-se a luz. Estronda a gruta, enquanto dos cristais a prata se espatifa.
O ar estala, extingue toda a chama. Esverdinhado o rosto, as mãos esgatinhando
o peito, a Dama estremece, se escarna, se esvai. Um grito se estrangula. E
estroçada no chão ela estertora.
40 De repente, silêncio e
escuridão. Gotas pingam do alto. Um morcego esvoeja.
41 Assustada, a moça foge
sobre cacos e poças, tropeça, se levanta, corre, pisando leve enfim o doce
musgo.
42 Lá fora, na claridade
da manhã que apenas se anuncia, o córrego mantém o antigo trote, água fresca e
cantante que parece chamá-la. E a moça se aproxima, se ajoelha, estende o
queixo, boca entreaberta para matar a sede. Mas no manso fluir da margem outra
boca a recebe. Boca idêntica à sua, que no claro reflexo do seu rosto, de volta
lhe sorri.
No texto, sobre o texto, a partir do texto
1.
Observe o 2°
período do 1° parágrafo. O que é a luz de prata? Como ela pode estar cega?
2.
O final desse
parágrafo diz: “presente o rosto, ausente o que do rosto conhecia.” Você já
ouviu alguém dizer que, de repente, não se conheceu? Isso já aconteceu com
você? Como isso é possível?
3.
No 5° parágrafo,
o lago diz que muitos vão procurar-se nele. O que representa isso? Onde as
pessoas costumam procurar-se a si mesmas? E você?
4.
Observe o 2° e 3°
períodos do 6° parágrafo. O que representa isso para nós? Podemos dizer que ela
tenta fugir da realidade? Em que situações isso pode ser chamado de fuga?
5.
Analise o 3°
período do 7° parágrafo. O que significa? Por que está escrito assim?
6.
O próximo período
começa assim: “Juntos atravessaram um campo...” De quem a autora está falando?
7.
No 8° parágrafo,
temos uma pergunta que apresenta dois sentidos. Quais são eles?
8.
Descreva a
caverna onde a moça entrou.
9.
O 15° parágrafo
fala em gesto de corisco. O que é isso?
10. O 32° parágrafo diz que a moça “sabe apenas que não
quer afastar-se de si mesma.” Você já se afastou de si mesma(o) alguma vez?
11. A moça, afinal, recuperou seu reflexo? Que teve de
fazer para isso?
12. Em algum momento ela se perdeu?
13. Em que momento a moça sentiu medo? E arrependimento?
14. Mas se seu reflexo era tão importante para ela, como
pode ter-se arrependido?
15. Se havia tantas bacias com rostos na gruta e se nenhum
rosto jamais havia saído de lá, por que nenhuma outra moça tinha conseguido
encontrar a Dama dos Espelhos?
16. Perder o reflexo é uma metáfora para algo muito comum
em nossos dias. De que modo as pessoas costumam perder sua própria imagem?
17. A partir dessa ideia, que tipo de pessoa o lago
representa? E o córrego?
18. Como anda a relação entre você e você? Há o risco de
que você se perca a si mesmo(a)?
19. Esse texto traz um monte de ideias sobre nós, a nossa
forma de nos vermos a nós mesmos, os riscos de nos perdermos, o amor de cada um
por si próprio, etc. Você deve, então, redigir uma dissertação e, no mínimo, 20
linhas, refletindo sobre um desses aspectos, ou alguns deles, ou mesmo todos...
MUDANDO DE ASSUNTO...
20. No 7° e no 39º parágrafo, a autora brinca com as
palavras (é o que chamamos de figuras de linguagem). Identifique essas “brincadeiras”.
21. Por que outra forma poderíamos substituir a forma
verbal “estivera”, no 3° parágrafo?
22. Observando as orações ao longo do texto, identifique
relações de continuidade, consequência, oposição e finalidade entre elas.
23. Identifique os sujeitos dos verbos marcados no texto.
oi rafa
ResponderExcluiroi gabi
ResponderExcluirapredi muito com essas perguntas e vc?
ResponderExcluirtbm kkkkkkkkkkkkkkkkkk
ResponderExcluiroi
ResponderExcluira resposta da 1 qual e
ResponderExcluirfdfssssss
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